Construção Participativa de Mapa de Estratificação Ambiental em Assentamentos de Reforma Agrária
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Palavras-chave

planejamento de uso do solo
assentamentos rurais
Zoneamento Ecológico-Econômico

Como Citar

Ayaviri Matuk, F. .-., & Lani, J. L. (2009). Construção Participativa de Mapa de Estratificação Ambiental em Assentamentos de Reforma Agrária. Revista Brasileira De Agroecologia, 4(2). Recuperado de https://revistas.aba-agroecologia.org.br/rbagroecologia/article/view/8916

Resumo

Construção Participativa de Mapa de Estratificação Ambiental em Assentamentos de Reforma Agrária Participatory Construction of Environmental Map of Stratification in Agrarian Reform Settlements Área de conhecimento: 4. Construção e socialização do conhecimento. Resumo O planejamento produtivo e territorial de assentamentos de Reforma Agrária tem incluído a participação dos assentados em sua elaboração. Tem-se desenvolvido trabalhos visando associar conhecimentos científicos e informais, sob a perspectiva agroecólogica, conciliando demandas das famílias e orientação técnica para o trabalho com a terra. Este trabalho objetivou integrar o uso de ferramentas de Geoprocessamento com a percepção ambiental de assentados do assentamento Olga Benário - Visconde do Rio Branco, MG - através da produção de mapas contendo a estratificação ambiental gerada por assentados e técnicos. Os dados produzidos poderão ser utilizados por assentados e técnicos no planejamento produtivo da área, em curso, bem como auxiliar o manejo agroecológico dos recursos do assentamento. O material gerado indica o potencial da percepção dos assentados dos ambientes e a potencialidade do uso do Geoprocessamento na construção de conhecimento, durante o planejamento participativo. Palavras-chave: planejamento participativo; manejo agroecológico; Geoprocessamento. Abstract The production and territorial planning of Agrarian Reform settlements has included the participation of settlers in their preparation. Works have been developed to associate scientific and informal knowledge, under the agroecological perspective, reconciling demands of families and technical guidance for the work with the land. This study aimed to integrate Geoprocessing tools and environmental perception of the settlers from Olga Benário settlement - Visonde do Rio Branco, MG - through the production of maps containing the environmental stratification criated by settlers and technicians. The data produced can be used by settlers and technicians in the production planning of the área, in progress, and assist the Agroecológico management of the settlement resources. The material generated indicates the potential of the settlers' perception of the environments and the potential use of Geoprocessing in the construction of knowledge during the participatory planning. Keywords: participatory planning; Agroecológico manegment; Geoprocessing. . Introdução Os movimentos sociais de luta por terra no Brasil são produto de uma histórica concentração de terras, embasada pela expropriação de pequenos agricultores. (GRAZILIANO, 1982). Apesar dos avanços obtidos pela criação de assentamentos de Reforma Agrária, a luta dos assentados rurais não se limita à conquista da terra. Após a ocupação do assentamento é preciso conhecer a dinâmica dos ambientes da área e definir sua organização territorial e produtiva. Equipes que oferecem orientação técnica para os assentamentos têm aderido o planejamento participativo na elaboração do Plano de Desenvolvimento dos Assentamentos (PDA’s) e demais atividades voltadas para sua consolidação, o que viabiliza um planejamento mais coerente com a realidade dos assentados (VIVLELA, 2002). Muitos dos assentamentos do Movimento-Sem-Terra (MST) têm buscado uma intervenção baseada na Agroecologia - associando o conhecimento informal (percepção ambiental dos assentados) e o científico (MANCIO, 2008) – que apresenta propostas de manejo mais coerentes com a agricultura familiar, pois visa restabelecer os ciclos da natureza, potencializando a fertilidade natural dos agroecossistemas sem a utilização constante de insumos químicos; além de valorizar modelos de organização produtiva identificados com a realidade das comunidades com que trabalha; assim condiz com os ideais do movimento (ALTIERI, 1999). Outro ponto importante no planejamento é a forma como o levantamento e sistematização dos dados físicos é feita. Os levantamentos de solos e demais atributos do meio físico são muito potencializados quando utilizam ferramentas do Sistema de Informações Geográficas (SIG), que possibilitam cálculos, representações cartográficas e cruzamento de informaçoes muito amplos (PEREIRA, 1999). A inclusão nos mapeamentos de elementos comuns à linguagem e percepção ambiental dos grupos para quem se faz o planejamento torna a linguagem científica acessível para eles, auxiliando sua participação (VILELA, 2002). Este trabalho objetivou integrar a percepção de assentados rurais, sistematizada na elaboração de uma chave de identificação ambiental, a um mapa de estratificação ambiental gerado em SIG, visando auxiliar o manejo agroecológico do solo do assentamento Olga Benário. Metodologia O assentamento Olga Benário localiza-se em Visconde do Rio Branco, Minas Gerais (MG), entre as coordenadas geográficas 21° 0´37´´ S e 42° 50´26´´. Foi criado em 2005, com capacidade para 30 famílias, numa área de 760ha. A heterogeneidade dos assentados (de origem urbana e rural de diferentes regiões) e falta de experiência de algumas pessoas no trabalho com a terra demanda grande necessidade de assistência técnica. O planejamento produtivo foi definido por uma equipe da Associação estadual de Cooperação Agrícola (AESCA), no PDA, e aprofundado por equipes de pesquisa da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que estão assessorando os assentados para o manejo agroecológico do solo. O trabalho foi realizado através da observação participante de oficinas e encontros realizados no assentamento por projetos de pesquisa da UFV, com base na pesquisa participante. Nestes projetos foram trabalhados com os assentados conhecimentos sobre solos, no “Grupo de Observação dos Solos”, cujo produto final foi a construção participativa de uma chave de identificação de ambientes, que foi sistematizada como Estratificação dos Ambientes do Assentamento. Elaborou-se o mapa através do programa Arc Gis 9.3, utilizando a nomenclatura dos ambientes definida pelos assentados. A digitalização foi feita em tela, utilizando como referencial: Modelo Digital de Elevação (MDE), Mapa de Solos expedito e Imagem de Satélite IKONOSII da área. As unidades ambientais mapeadas foram: Chapadão, Morro Íngreme, Morro Suave, Baixada Seca e Baixada Úmida. Resultados e discussões A Estratificação Ambiental (Figura 1) seguiu a topografia da área, que está vinculada à distribuição dos solos e atributos do solo, como estrutura e cor. Constatou-se a eficiência da pesquisa-ação na construção de conhecimento local, uma vez que essa contribuiu com a aprendizagem e geração de conhecimentos entre os assentados. Muitos deles demonstraram ter incorporado o conhecimento adquirido já o associando com os ambientes que encontram em seus lotes, bem como com situações que são problema dentro do assentamento, como áreas de baixa fertilidade, periodicamente inundadas e susceptíveis à erosão, chegando ao voçorocamento. Apesar de a Chave de Identificação dos Ambientes, que delineou a estratificação, ter sido, em grande parte, orientada pela equipe de pesquisa, os assentados demonstraram o conhecimento sobre os solos e a relação de sua distribuição com a existência de diferentes ambientes no assentamento. As unidades ambientais estabelecidas na chave de identificação foram: Chapadão, Morro, Grota, Bacia e Baixada, subdividida em Brejo e Baixada Seca. Figura 1: Estratificação Participativa dos Ambientes do Assentamento Olga Benário, Visconde do Rio Branco, MG. Para não haver sobreposição de unidades ambientais, como Bacia e Morro, Grota e Baixada Seca, estabeleceu-se como unidades: Chapadões (correspondem aos Latossolos), Morro Íngreme (Argissolos Vermelhos), Morro Suave (Cambissolos), Baixada Seca (Argissolos Vermelho-Amarelos) e Baixada Úmida (Gleissolos) (EMBRAPA, 2006). O Chapadão, Morro Íngreme e Suave incluem a Bacia e a Grota. As Baixadas foram separadas de acordo com a possibilidade ou não de serem inundadas, em Seca e Úmida. A mudança de alguns termos presentes na Chave de Identificação apresentada se deu para organizar e simplificar a compartimentação da paisagem segundo as classes de solo encontradas no assentamento. A nomenclatura utilizada no mapa não se diferencia da também adotada durante as discussões com as famílias. Os assentados que participaram das atividades de discussão dos estratos ambientais conseguiram visualizar e compreender os ambientes anteriormente estratificados por eles dentro da perspectiva planificada dos mapas. Como o planejamento produtivo da área se encontra em curso, este conhecimento já vem sendo utilizado para discussões com os assentados sobre a alocação das atividades produtivas. A síntese sistemática da chave e as representações cartográficas aqui construídas poderão contribuir com a elaboração de novas sínteses e mapas. O diferencial da utilização deste material, elaborado em SIG, é a precisão que ele oferece, podendo ser utilizado por técnicos e assentados em suas atividades de planejamento. Conclusões Através de diagnósticos ambientais participativos é possível orientar o manejo agroecológico do solo e recursos naturais de assentamentos rurais. O trabalho participativo é fundamental para a implementação de planejamentos agroecológicos, pois viabiliza a reflexão da prática agrícola em relação à realidade do grupo para o qual se faz o planejamento, oferecendo condições para sua inclusão na escolha das definições a serem estabelecidas. Mapas elaborados em SIG podem auxiliar o trabalho de técnicos e assentados - que no assentamento Olga Benário, demonstraram compreender a espacialização da estratificação de ambientes – além de oferecerem uma visualização e precisão mais qualificadas da distribuição dos ambientes. Apesar de possuírem diferentes origens culturais os assentados têm uma percepção ambiental que pode ser explorada e potencializada através de trabalhos voltados para a construção de conhecimento. Referências ALTIERI, M. A. Agroecologia – Bases científicas para uma agricultura sustentável. Editorial Nordan–Comunidad. 1999. p. 325. EMBRAPA. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília: EMBRAPA; Rio de Janeiro: EMBRAPA solos, 2006. 306 p. MANCIO, D. Percepção ambiental e construção do conhecimento de solos em assentamento de Reforma Agrária. Viçosa; Universidade Federal de Viçosa, 2005.152p. (Tese de Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas). PEREIRA, G. C. Geoprocessamento e Urbanismo em Salvador: uma contribuição cartográfica. Rio Claro; Universidade federal Paulista, 1999. 137. (Tese de Doutorado no Instituto de Geociências e Ciências Exatas). VILELA, M, de F. Interação de técnicas de Geoprocessamento e levantamento participativo de informações sócio-ambientais: um subsídio para a Reforma Agrária. Viçosa; Universidade Federal de Viçosa, 2002. 135p. (Tese de Doutorado em Ciência Florestal).
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